Sobre o Rio

Demonstrando a Linha

No céu e na Terra do Brasil

Seguindo uma estratégia de demonstração e propaganda enquanto aguardava as decisões do Tribunal de Contas no Brasil, o industrial de Toulouse Pierre Georges Latécoère decidiu começar por uma apresentação aérea. Seria a primeira entrega de uma mala postal provinda da Europa para a América do Sul, mas como nada havia em matéria de infraestrutura para aviões nos países percorridos (Brasil, Uruguai e Argentina), tratava-se mesmo de um raid, ou seja, um desafio aéreo. O plano era realizar duas etapas, uma rumo ao norte e outra rumo ao sul, partindo ambas do Rio de Janeiro. Os pilotos começariam pelo sul, saindo do Campo dos Afonsos com destino a Buenos Aires. Num outro momento, rumariam do mesmo ponto de partida para Recife. Pode-se considerar que, para a época, era uma “manifestação de vanguarda” na aviação.Os raids foram a segunda investida de Latécoère em termos de preparação para a implantação da Linha na América do Sul. O industrial já contabilizava 130 aviões e hidraviões, mil empregados, entre os quais 350 eram mecânicos e 50 pilotos. Ainda assim, as finanças precisavam se equilibrar. Mas em maio do ano de 1924, o obstinado Latécoère, conhecedor de que a troca de correspondências entre a Europa e a América do Sul era a segunda do mundo, só inferior àquela que se dava entre o Velho Mundo e Nova York, enviara o piloto Joseph Roig ao continente sul-americano para prospectar o prolongamento da Linha. Roig percorreu de navio e pelas precárias e raras estradas a costa brasileira e, já na ocasião, referenciou cidades e locais para a descida dos aviões. Roig retornou com uma lista de possíveis “aéroplaces” (aeródromos).

Capas Latécoère

Segundo o historiador Emmanuel Chadeau em sua biografia de Latécoère (Olivier Orban, 1990), Joseph Roig prospectava 12 etapas brasileiras, desde então, imaginando alguns terrenos já preparados; certamente, os terrenos militares. Maiores precisões sobre as trocas de telegramas entre o piloto e o patrão em Toulouse podem ser encontradas no livro de Laurent Albaret, Pierre Georges Latécoère Correspondances 1918-1928, (Privat 2013), que organizou toda a correspondência do industrial. Por esta, é possível avaliar o quanto Roig foi rigoroso pelas palavras do relatório do próprio empresário:

Do Rio de Janeiro a Porto Alegre: absolutamente nenhum terreno de pouso, exceto as praias, a montanha ou a floresta virgem até o mar. As praias, em todo o percurso, com exceção do trecho entre o Rio de Janeiro e Paraty, são excelentes quando a maré está baixa. Com maré alta, elas permitem a aterrissagem, mas tornam a decolagem quase impossível”. (nossos grifos)

Com relação ao norte do Brasil, Latécoère anotou:

(Os terrenos entre) Rio-Bahia indicam que, nas regiões onde estão, a mais ou menos 5 km, pode-se, facilmente, fazer aeroportos suscetíveis de serem empregados por uma linha de exploração regular. É nessas regiões que se deve pedir aos Governos dos Estados autorização para cessão à Compagnie Générale d’Entreprises Aéronautiques (CGEA) terrenos previamente reconhecidos por essa sociedade (pertencente a Latécoère). Esses terrenos precisam ter 1000 x 1000m.”

A missão para o norte foi mais tardia do que a missão para o sul e possibilitou avaliar que nada seria simples. A concessão de terrenos a que se refere o industrial em seus relatórios aconteceu aos poucos; estes eram, na maioria das vezes, terrenos de particulares ou de militares, mas sem estrutura para receber aeronaves. Tudo estava por construir. Antes, porém, era preciso “decifrar” os céus do Brasil, país com o maior território a ser transposto e com grande diversidade de clima e paisagens. Também foi neste país que as dificuldades burocráticas se mostraram obstáculos.

Todavia, sob a pena de um outro piloto, que será figura central da aviação francesa no Brasil – e isso até se aposentar pela Air France – pode-se conhecer o verdadeiro gosto de aventura e as peripécias da implantação da Linha na América do sul: Paul Vachet.

Vachet escreveu seu livro, Avant les Jets (“Antes dos jatos”) bem mais tarde (publicado em 1957), depois de se aposentar, e seu texto é também a revelação de suas memórias. A narrativa é envolvente, pois conduz o leitor a praias desertas do Brasil e revela situações para lá de inusitadas. Casado com Lydie Vachet, o piloto teve a peculiaridade de quase sempre tê-la a bordo em seus voos, o que era muito raro à época. Juntos, eles viveram circunstâncias perigosas e mais de uma vez Lydie ajudou no reparo dos aviões em pane.

Vachet et Lydie

Foi então a esse vasto e incógnito território do Brasil que Latécoère enviou seus representantes, pilotos e mecânicos, além de três aeronaves Breguet XIV desmontadas, por navio. Duas foram as equipes formadas. Inicialmente, o príncipe Charles Murat, administrador da empresa de Latécoère, chefiava os grupos. Do ponto de vista técnico, foram enviados dois pilotos, além do próprio Joseph Roig: Victor Hamm e Paul Vachet. Juntou-se a eles o compatriota Etienne Lafay, já residente no Brasil por conta da Missão Francesa de Aviação Militar, implantada no Campo dos Afonsos desde 1919. Três foram os mecânicos: Gauthier, Estival e Chevalier.Aviões montados, equipes prontas e a badalação da mídia: assim foi a partida dos pilotos franceses dia 15 de janeiro de 1925. O impacto desse evento está narrado com detalhes no jornal O Estado de S.Paulo da mesma data, numa matéria de página inteira.

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Sobre a saída, escreveram os jornalistas (página 8):

O fato do dia na capital da República nessas últimas vinte e quatro horas foi, indiscutivelmente, a partida da Esquadrilha Latécoère, para o sul do continente, numa arrojada experiência da qual se esperam os mais profícuos resultados. Às duas horas, os diretores da Companhia Latécoère, Príncipe Murat e sr. Marcel Portait, ofereceram ao salão do Jockey Club uma ceia à Imprensa carioca, festejando esse auspicioso acontecimento, que marca uma etapa da nossa História.

A ceia foi assistida também pelo sr. Henry Oppenot, encarregado dos negócios da França, e sua exma. esposa.

Depois, cerca de três horas, os diretores da empresa partiram em companhia, em automóvel para o Campo dos Afonsos, a fim de assistirem à partida dos aviões, a qual se deu, precisamente, às 4 horas e meia em presença de grande número de pessoas de destaque, entre as quais todos os membros da Missão Militar Francesa e altas autoridades nacionais.

Antes que os aparelhos largassem, a senhora Hoppenot entregou a cada um dos aviadores uma belíssima corbelha de flores naturais.”

Segue-se, no famoso jornal, uma narrativa detalhada do raid Latécoère rumo a Buenos Aires. Do histórico Campo dos Afonsos – que é mais do que centenário hoje – partiram os aviadores. Dali, os pilotos avistariam em sobrevoo as belezas do Rio de Janeiro, então capital do Brasil e local de tantas quimeras europeias; paisagem que os faziam sonhar com o paraíso terrestre. Permanece no Brasil, no antigo Campo dos Afonsos, a memória da aviação; seus primórdios são lembrados no Musal – Museu Aeroespacial brasileiro. Além disso, situa-se no lugar e a UNIFA, Universidade da Força Aérea, como uma sequência da antiga missão de aviação francesa, que chegou em 1919. Um capítulo à parte, que é preciso também visitar.

Por Mônica Cristina Corrêa.

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Publicado em 19/10/2018

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