Obras

Piloto de Guerra (1942)

ComPiloto de guerra, Antoine de Saint-Exupéry oferece seu testemunho perturbador da derrocada da França em junho de 1940. O livro foi publicado primeiramente nos Estados Unidos, em fevereiro de 1942, simultaneamente em francês e inglês, com o título de Fligthto Arras. Na França, a obra sai no final de 1942, antes de ser proibida e impressa clandestinamente.

Dia 3 de setembro de 1939, a França declara guerra à Alemanha. Saint-Exupéry é mobilizado e consegue ser designado ao grupo de aviação 2/33, no qual cumpre missões de reconhecimento fotográfico. Em 22 de junho de 1940, o Armistício é assinado e a França dividida em duas zonas por uma linha de demarcação. Desmobilizado no verão de 1940, Saint-Exupéry se exilou nos Estados Unidos, em dezembro do mesmo ano, onde escreverá Piloto de guerra. Ele narra missões que cumpriu no seio do grupo 2/33, descreve a guerra, seus horrores e a humilhação da derrota. A missão de 23 de maio de 1940 sobre Arras lhe sugere o título da versão inglesa Flightto Arras.

Com pudor e amor pelo cidadão de seu país, Saint-Exupéry homenageia aqueles que sacrificaram suas vidas. Assina o manifesto de uma França que recusa a derrota. Concebe uma obra de reflexão sobre os fundamentos da civilização ocidental. Crê na vitória porque crê nas virtudes de uma tradição espiritual que oferece a todos razões para crescer, superar-se e sacrificar-se a fim de construir o mundo.

Nos Estados Unidos, o livro é publicado em francês, na Editora da Maison Française, e em inglês pela Reynal& Hitchcock, com tradução de Lewis Galantière. Os americanos ficam transtornados com a narrativa. O livro permanece por seis meses como o mais vendido e contribui para retificar a imagem da França aos olhos da opinião pública e dos políticos.

Na França, a editora Gallimard submete a obra ao serviço de propaganda alemão, que autoriza a publicação. Naquele período de guerra, vários movimentos políticos se enfrentavam (vichystas, petanistas, marechalistas, gaullistas, giraudistas, comunistas…) e o livro de Saint-Exupéry não é percebido como o de um simples patriota, isento de discurso político. A imprensa colaboracionista lhe reserva uma acolhida odiosa e o entourage do general de Gaulle denuncia o livro com a mesma violência. Recriminam-lhe, entre outras coisas, as páginas sobre Jean Israël, coronel patriota de excepcional coragem num momento em que os judeus são perseguidos. Finalmente, as autoridades alemãs proíbem o livro. Várias edições clandestinas são impressas e difundidas pelos movimentos de resistentes.

Resumo

Narrandoas missões que cumpriu junto ao grupo de reconhecimento 2/33, Saint-Exupéry descreve a guerra e a humilhação da derrocada da França após o Armistício de 22 de junho de 1940. No comando de seu avião, o piloto evoca suas lembranças e medita sobre o Homem e a Civilização.

Em 23 de maio de 1940, ele tem de sobrevoar a região de Arras para tirar fotos. Tal missão é inútil do ponto de vista militar e tão perigosa que voltar vivo seria um milagre. Mas a França está em guerra e tripulações são sacrificadas “como se jogassem um copo d’água no incêndio de uma floresta”.

Ele pensa em Sagon, ferido num combate aéreo alguns dias antes. No hospital, contava sua desgraça com simplicidade. Um heroísmo ordinário num avião em chamas. O homem se descobre diante do perigo: “Viver é nascer lentamente”.

Com muita altitude, o frio congela os instrumentos de bordo e as metralhadoras. Mas é o único meio de evitar os aviões de caça no encalço, prestes a abatê-lo.

O Exército francês queima as cidades para atrasar a marcha alemã, sem conseguir detê-la. Destroem-se centenas de anos de trabalho e de paciência em troca da eficiência de um tiro. Tudo isso é absurdo. O adversário tem uma tática lógica e eficaz. Como um veneno, seus tanques penetram na zona inimiga e destroem os centros vitais.

Do alto, o piloto vê os cortejos de refugiados. A paz é ordem, a guerra destrói essa lógica. Os homens não são mais homens quando estão no vácuo, quando seus elos foram rompidos, todos abandonados à própria sorte. A derrota, no entanto, não é imputável às vítimas.

O avião desce para tirar fotos. É um alvo. Enquanto atiram contra este, Saint-Exupéry se lembra de sua governanta tirolesa. Na prova de fogo, “o homem não se interessa mais por si mesmo. Somente lhe é imposto aquilo de que é feito”. Saint-Exupéry pensa em seu irmãozinho moribundo. “O que sofre, dizia-lhe ele, não sou eu, mas meu corpo”. As explosões de obuses são cada vez mais próximas. A alegria de estar ainda vivo é renovada a cada instante: “Os que atiram contra nós lá de baixo, sabem que nos forjam?”

As fotos são tiradas, o avião retorna à base, a tripulação está sã e salva. Na base, os pilotos estão às ordens. Amanhã, eles serão os vencidos que deverão calar-se. As sementes devem apodrecer para que nasçam as árvores. Frequentemente, o primeiro ato da criação é uma derrota.

É preciso preservar a França. É preciso preservar essa civilização que “repousa sobre o culto do Homem através dos indivíduos. É preciso restaurar o Homem. É ele a essência de minha cultura. É ele a chave de minha Comunidade”.

Citações

“Cada um é responsável por todos”.

“A iluminação é apenas a visão súbita, pelo espírito, de uma estrada lentamente preparada”.

“Saboreio as obrigações do trabalho que nos fundem, juntos, num tronco comum”.

“Nutro-me da qualidade dos companheiros”.

“Não há ato que não acarrete outro ato”.

“Combaterei pela primazia do Homem sobre o indivíduo”.

“Quem sou se não participo? Preciso participar para ser”.

“O que é um homem se lhe falta substância? Se ele é somente um olhar e não um ser?”

“Conhecer, não é desmontar nem explicar. É ter acesso à visão”.

“Um Ser não é do império da linguagem, mas dos atos. Nosso Humanismo negligenciou os atos”.

“És o teu ato”.

“A Guerra não é uma aventura. A guerra é uma doença como o tifo”.

“A aventura repousa na riqueza dos laços que estabelece, dos problemas que coloca, das criações que suscita”.

“A grandeza da minha civilização é que cem menores devem arriscar suas vidas para salvar um só menor que está soterrado. Eles salvam o Homem”.

“O homem é tão-somente um nó de relações”.

“Aquele que difere de mim, longe de me lesar, enriquece-me”.

“De onde sou? Sou da minha infância. Sou da minha infância como de um país”.

“Os que se foram embelezam a lembrança. Nós os revestimos sempre de seu sorrio mais límpido.”

“Eu combaterei pelo Homem. Contra seus inimigos. Mas também contra mim mesmo”

“Creio que a primazia do homem funde a única Igualdade e a única Liberdade que têm um significado”.

“A função de testemunha sempre me horrorizou. Quem sou se não participo? Preciso participar para ser.”

“Nossa Comunidade, tal como nossa civilização a havia construído também não era mais a soma de nossos interesses, era a soma de nossos dons”.

“Somos irmãos em alguma coisa e não simplesmente irmãos. O compartilhamento não garante a fraternidade. Esta se enreda no sacrifício somente. Enreda-se no dom comum mais vasto do que a si mesmo”.

“Quando uma mulher me parece bonita, nada tenho a dizer. Eu a vejo sorrir, simplesmente. Os intelectuais desmontam o rosto para explica-lo em pedaços, mas não veem mais o sorriso”.

“Não há proteção para os homens. Uma vez homem, te deixam ir”.

“Cada um é responsável por todos. Cada um é o único responsável. Cada um é o único responsável por todos”.

“Viver é nascer lentamente”.

“A verdade de amanhã se nutre do erro de ontem”.

“Há vítimas que exaltam, outras se abastardam. Derrotas que assassinam, outras que despertam”.

“Nem a inteligência nem o juízo são criadores”.

Bibliografia

Antoine de Saint-Exupéry : Pilote de guerre, Éditions de la Maison française, New York, 1942

Antoine de Saint-Exupéry : Flight to Arras  Reynal& Hitchcock, New York, 1942

Antoine de Saint-Exupéry : Pilote de guerre, Gallimard, France, 1942

Michel Autrand : Vers un nouveau roman : Pilote de guerre  dans Roman 20-50 n° 31, 2002

Monique Gosselin-Noat : La terre et le moi dans Pilote de guerre et Terre des hommes, dans Roman 20-50 n° 34, 2005
Olivier Odaert : Saint-Exupéry et le fascisme ; une poétique de l’idéologie, RiLUnE n. 1, 2005

Michel Quesnel : Image de l’absurde dans Pilote de guerre, dans Roman 20-50 n° 32, 2003

Gisèle Sapiro : La guerre des écrivains, Fayard, 1999

Thanh-Vân Ton-That : Images et voix de l’enfance dans Pilote de guerre, dans Roman 20-50 n° 33, 2004