Latecoere et Cornemont

Traçando a Linha

Uma empresa de peripécias

E a realização da ousada empresa do industrial de Toulouse, Pierre-Georges Latécoère, não demorou a ser posta em prática. Ansioso por provar que os incipientes aviões do início do século 20 podiam carregar o correio, Latécoère organizou uma espécie de “teste-demonstração” no Natal de 1918.Assim, no dia 25 de dezembro, ele mesmo decolou de Toulouse com o piloto Cornemont no comando de um Salsom, rumo a Barcelona. Apesar do frio, eles chegaram com segurança e aterrissaram no hipódromo de Can Tunis após duas horas e vinte minutos de voo. O sucesso da operação incitou o próximo passo, ou seja, o próximo voo.

Desta vez se tratava de chegar ao Marrocos. Latécoère tomou a decisão de fazer o raide com dois aviões. Na empreitada estava também seu sócio e amigo de sempre, Beppo Maissimi, italiano francófilo que por toda a vida estaria ao lado do industrial.

Os aviões decolaram de Montaudran (Toulouse) em 25 de fevereiro de 1919: Massimi com o piloto Lemaître e Latécoère com o piloto Junquet, em Toulouse, rumo a Barcelona, ambos em aviões Salmson. Mas dali em diante a empreitada se tornou rocambolesca como numa comédia…

Os aviões se perderam nos ares e não voaram juntos. O primeiro a atingir a pista de Alicante foi o de Lemaître com Massimi a bordo. Assim como seu piloto, Massimi esperava encontrar a pista de 600 metros encomendada aos espanhóis com antecedência. Lá estava ela, só que com 600 metros QUADRADOS… Naturalmente, o avião desceu e ultrapassou o exíguo limite daquele “lenço de bolso” que parecia a pista e bateu em pedras esfrangalhando o trem de pouso. Rapidamente, Masssimi, embora sangrando pelo nariz, fez todo o pessoal do campo tentar aumentar a pista a fim de evitar que seu sócio passasse pelo mesmo apuro.

A dupla seguinte, Latécoère e Junquet, tinha um problema em comum: eram míopes, o industrial e o piloto. Sem ter visto o campo de pouso da primeira etapa, o piloto voara 100 km a mais e teve pane de combustível… Desceu numa praia e precisou ir buscar alguns galões de combustível na cidade mais próxima. Na manhã seguinte, quando eles tentavam chegar ao destino, o piloto Junquet perdeu os óculos numa turbulência e, ao pousar na pista de Barcelona, sem enxergar nada direito, caiu num buraco. Para tirar dali Latécoère, tiveram de trazer uma escada de mão…

Nada disso fez Latécoère desistir, ao contrário. Ele retornou a Paris de trem, mas julgou que era possível chegar de avião ao Marrocos. Quinze dias mais tarde, desta vez com o piloto Lemaître, Latécoère chegará a Rabat, para espanto e alegria de todos. Ele carregava consigo o jornal francês da véspera e pôde entregá-lo ao marechal Lyotey, na época designado e residente no local. Além disso, Latécoère teve a delicadeza de levar violetas naturais de Toulouse à esposa do marechal. A empolgação com todo esse “frescor”, isto é, jornal atual e flores bem vivas, favoreceu Latécoère. O marechal se tornou aliado da empreitada. Dali, os viajantes seguem para Casablanca e retornam com o correio oficial ao “Quai d’Orsay”, em Paris. A “Linha” estava começando…

E no traçado dessas peripécias, seguia também uma indústria nascente, a aeronáutica. Latécoère fazia viajar os primeiros aviões e passou a fabricar outros. A ponta de lança desses primeiros trechos, malgrado a insuficiência técnica, seria o avião Breguet XIV, que ele transformará em “Breguet Latécoère Torpedo”. Latécoère prosperava: depois de ter criado a LAL (Lignes Aériennes Latécoère), fez a CGEA (Compagnie Générale d’Entreprises Aéronautiques) e a SIDAL (Société Industrielle des Avions Latéocère).

E esse sucesso fez surgir um bom número de concorrentes. Mas nada se comparou ao tamanho do “império aéreo” de Latécoère, que só cresceu apesar das imensas dificuldades. Estas, aliás, se mostram já na chegada do primeiro inverno. Afora os prejuízos materiais com aviões espatifados, incendiados, algumas vidas de pilotos, sobretudo, se perderam.

Porém os números das empresas de Latécoère em 1922, quando o correio já era regular e semanal entre a França e o Marrocos, permitem perceber sua grandeza: 75 aparelhos, 22 pilotos, 120 mecânicos, perto de mil empregados… E, quase inacreditável: alguns pombos-correios que substituíam a inexistente ou incipiente comunicação sem fio…

Em 1923, um dos pilotos da empresa, Joseph Roig, foi nomeado para estender a Linha até Dacar e São Luís do Senegal, o que era de grande periculosidade. Foram criadas, então, as escalas de Agadir, Cabo Juby (em pleno deserto do Saara), Port-Étienne e Dacar. E também essa empresa teve êxito. Estavam, pois, fincadas as bases do correio aéreo. O próximo arroubo seria estudado mais uma vez por Roig. Tratava-se de conquistar o “Novo Mundo”.

O “linha-dura” da Linha: o chefe Didier Daurat

Dos incidentes graves que aconteceram nas empresas de Latécoère entre 1920 e 1922 em Toulouse, um foi capaz de levar a mudanças drásticas na direção da “Linha”. E aconteceu no verão europeu, em 14 de agosto de 1921. Nas oficinas de Montaudran, onde mecânicos regulavam e reparavam os aviões, um garoto aprendiz, de nome Gaye, insistiu para que o piloto responsável pelo subsequente teste do aparelho o levasse consigo em voo. Hesitante, o piloto acabou por concordar, tamanha a insistência do menino. Mas o motor do Salmson, sobre Toulouse, parou bruscamente de funcionar e o avião caiu em espiral, matando tanto o piloto quanto o menino, que era filho de um funcionário aduaneiro. A comoção foi geral e a situação irreparável: o garoto era menor e não fazia parte do quadro da empresa…

Dessa pesada lição, Didier Daurat, que ocupava o posto de diretor das operações desde 1920, tirará a conclusão de que era preciso conduzir com rigor e disciplina as operações da Linha. Foi então que ele proibiu a entrada de todo estranho nas áreas de Montaudran, principalmente das mulheres. Não era incomum que as moças viessem ver os aviões e os pilotos. Mas doravante, estavam proibidas, o que tornaria Daurat, que era piloto militar condecorado, uma mítica imagem de homem rígido e irredutível, que distribuía sanções a qualquer atraso ou infração dos seus comandados. Mas a tal disciplina “de ferro” foi assimilada pelos jovens pilotos e mecânicos que vieram trabalhar na Latécoère. Os que não se adaptavam, não permaneciam.

Didier Daurat seria considerado também um dos responsáveis pelo sucesso da Linha Latécoère e depois Aéropostale. Seu rigor (ele tinha uma formação em relojoaria) e seu exemplo (pilotava se algum dos seus funcionários fraquejasse) vão inspirar o piloto-escritor Antoine de Saint-Exupéry para a criação do personagem “Rivière”, no livro Voo Noturno (1931). O autor, longe de criticar um chefe por sua sisudez, admira-o e afirma que ele sabia “forjar” seus subordinados.

Certamente, por trás do disciplinador implacável que era Daurat, havia um homem sensível, que amava a música (casara-se com uma pianista) e que, apesar de afirmar que um piloto casado tinha a metade do valor, também soube amar e valorizar os que o cercavam.

Didier Daurat foi um dos fundadores da Air Bleu mais tarde. Escreveu um livro de memórias sobre a Linha, Dans le Vent des Hélices (1956), e faleceu em 1969 tendo o privilégio de saber que forjara, com efeito, mais do que homens. Ele forjara, com disciplina militar, os heróis da aviação civil francesa.

Por Mônica Cristina Corrêa.

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Publicado em 04/09/2018

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